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terça-feira, 19 de agosto de 2014

O NINHO VAZIO

por ASSUERO GOMES




É sempre bom lembrar que um ninho vazio está sempre cheio de ar como parecia no vinho da canção. Um ninho vazio nunca está vazio, está cheio de amor.

Feito de palhas de berços esquecidos, brinquedos amarelados, rasgos de fotos e de lembranças, mesmo vazio o ninho está cheio de saudade. Meio dor, meio alegria, sempre aberto o ninho se sustenta na árvore e sobrevoa no vento do tempo, olhando com a boca aberta para o infinito azul do céu. Meio esperança, meio desespero.

O ninho vazio é feito de bonecas, quebra-cabeças inconclusos, livros de tarefas inacabadas, e dessas fotos impressas no coração, de momentos e de eternidades.

O ninho contém em si a volta e a partida. Foi construído com pedaços de si, aos poucos, aos poucos, entre metade de sorrisos e febres noturnas, tosses e noites mal dormidas e manhãs bem-vindas. Em si, em si mesmo o ninho tornou-se eterno. Enquanto durar o casal, enquanto durar a árvore e o céu, e a lembrança viajante dos que ousaram voar com as asas próprias dos humanos. Nem mais anjos, nem mais animais, apenas humanos.

É sempre bom lembrar que no ninho vazio dormiremos nosso sono, e nossos sonhos. Nele veremos a derradeira visão, a derradeira manhã e a última noite; mas é sempre bom lembrar que antes disso, a cada ciclo de voo os ninhos se enchem de novo, mesmo fugazes, serão novamente alegres, novamente cheios, novamente felizes.

Mesmo vazios os ninhos nunca se desfazem. Contorcem-se, gemem silenciosos, choram orvalhos de madrugadas, cintilam brilhos de estrelas, oram. Jamais se desfazem. São a habitação do infinito, a morada do essencial, são a própria morada do humano. Ali a humanidade renasceu, se refez, se libertou e ganhou vida pela Terra.

É sempre bom lembrar que um ninho vazio está sempre cheio de amor, como no princípio.
        
Assuero Gomes

Médico e escritor. 
Postado no blog O ANEL DE TUCUM:
http://assuerogomes.blogspot.com.br/

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sobre a Saudade

 Por ASSUERO GOMES


A saudade às vezes pesa demais, pois nem sempre é só cinzas ou papel desbotado, nem música nem olhar; às vezes corta ou apunhala traiçoeira, como uma palavra inesperada num momento inoportuno.
Pode ser sutil ou atrevida, inconstante ou perpétua, mas lateja, arde e queima, devagarzinho assim como quem não chega, chegando, no inverso universo do espelho onde quem parte está voltando e quem vai chega, mas quem chega já partiu.

A saudade às vezes pesa tanto que tem que se dividir com alguém, uma saudade partilhada, para se sobreviver. Um vento que sopra contra a face pode trazê-la, numa tempestade ou num acalanto. Mantêm-se incógnita por muito tempo, assim latente e como um peregrino que chega ao seu destino se inflama em transe e bate no dorso como a ponta do suplício. Dói, como dói, entre partidas definitivas ou entre lapsos de tempos vazios de espera.
Saudade é a presença ausente, é o desafeto do afeto, é a dor doída e a lágrima retida.

A saudade é irmã fatal da solidão, como nesse depoimento colhido entre lágrimas secas:
“... e a solidão era tanta que eu perguntei a ela qual o momento no qual estivéramos mais unidos. Ela abanou a cabeça como se não soubesse ou como se não importasse. Eu lembrei então de toda nossa trajetória juntos. Havia se passado uns bons cinquenta anos, talvez cem, ou a eternidade, talvez trinta para não exagerar, mas é porque quando se está só, o tempo se torna turvo.

Continuei falando sozinho, como se não houvesse mais ninguém na sala, nem no quarto. E realmente havia?
A ironia é que depois de muito pensar, descobri que o momento em que estivemos mais unidos, foi no momento da separação, um pouco depois do natal, quando deixamos nosso filho e voltamos sozinhos para o outro lado. Escondíamos nosso choro silencioso um do outro e dele. Foi uma cumplicidade extrema e ela, a solidão, e eu, jamais fomos os mesmos a partir daí. Por mais que nos aproximássemos ela se afastava e eu também ...” Ou ainda: “ sempre nos restará os momentos que passamos juntos, esses ninguém nos poderá roubar”.

Há saudades suaves, mornas, tênues, que acariciam nosso coração. São lembranças de um tempo que não retorna, são momentos que pareciam tão insignificantes, gestos banais, lugares comuns, guardados amiúde, perfumes fugazes, e agora retornam para nos consolar. Saudade de pessoas que nos fizeram bem, que foram como anjos de almíscar que deixaram suas impressões benéficas nas nossas vidas e seguiram em frente.

A saudade preenche os espaços vazios dos corpos celestiais e dos nossos, é a sabedoria do sentir, o consolo do desespero, enfim, a saudade é tão humana, tão humana, que move nossos corações e destinos para o Criador.

Assuero Gomes é Médico e escritor.